De moto até o Everest: rodamos 1.500 km no teto do mundo
A bordo da CFMOTO 1000 MT-X, fomos de Lhasa, no Tibete, com destino ao acampamento base do Everest, a montanha mais alta do planeta
Depois de incontáveis curvas, que os chineses garantem serem cento e oito, chegamos ao Gawula Pass, no Tibete. O mirante a 5.210 metros acima do nível do mar no meio da Cordilheira do Himalaia é o único do mundo de onde se pode avistar cinco picos acima de 8 mil metros de altitude, entre eles o Monte Everest.
A montanha mais alta do mundo - destino final de nossa viagem de mais de 1.500 quilômetros de moto pela China - surgia imponente e por um ângulo pouco comum: sua face norte, avistada apenas pelo lado tibetano. Com 8.848 metros (ou 8.849 metros) de altitude, o Everest era inconfundível entre os outros gigantes de pedra. Seu cume fica a mais de 300 metros acima do Lhotse, quarta montanha mais alta do mundo que fica ao seu lado e tem 8.516 metros.
A região é conhecida como o teto do mundo não por acaso. Afinal, cinco dos 14 picos com mais de 8 mil metros no planeta ficam no Tibete. Lá estávamos nós de moto no teto do mundo.
Eu e um grupo de mais sete jornalistas de diversos países seguíamos rumo ao acampamento base do Monte Everest no lado tibetano com a recém-lançada CFMOTO 1000 MT-X.
Tivemos a oportunidade de experimentar a primeira bigtrail de 1.000 cc da marca chinesa por mais de 1.500 km em estradas incríveis e com vistas deslumbrantes das montanhas mais altas do mundo.
Habilitado na China
Xizang, como os chineses chamam o Tibete, é uma região autônoma da China, mas controlada de perto pelo governo central chinês. Além de uma Permissão Especial para viajar no Tibete, necessária para todo estrangeiro, para pilotar motos tivemos de tirar uma carteira de habilitação chinesa temporária. E, mesmo assim, só podíamos rodar em grupo e acompanhados dos guias locais.
A dica para quem sonha em viajar de moto pelo Tibete é contratar empresas que já tenham experiência na região para ajudar com a burocracia. No nosso caso, todo o trâmite ficou a cargo da Edelweiss Bike Travel, empresa austríaca com mais de 40 anos de atuação no ramo de mototurismo, responsável pela logística da expedição “CFMOTO Adventure Ride 2026”.
Aclimatação
O ponto de partida da viagem foi Lhasa, capital do Tibete, que surpreende pelo porte e infraestrutura. Com seus quase 1 milhão de habitantes, Lhasa tem trânsito no horário de rush e robôs autônomos fazendo entregas nos hotéis, como em qualquer outra grande cidade chinesa.
A agitação e a modernidade da capital tibetana contrasta com a secular e pacata imagem do Palácio Potala. Antiga residência de inverno dos Dalai Lama, os líderes espirituais do budismo tibetano, o palácio fica no topo de um morro e pode ser visto de qualquer lugar de Lhasa.
Com 13 pisos e mais de 1000 salas e dormitórios, o Palácio mais parece uma fortaleza e começou a ser construído em 1645. Apesar de ser lotado, já que, além de turistas, recebe fiéis budistas, o Potala é atração obrigatória para quem visita a capital tibetana.
Além de visitar à mais imponente obra arquitetônica do Tibete, Lhasa serviu para o grupo se aclimatar à altitude. Localizada a 3.650 metros acima do nível do mar, a capital tibetana foi o local mais “baixo” que dormimos durante essa aventura com a CFMOTO.
O ar rarefeito e os baixos níveis de oxigênio são uma preocupação constante para quem viaja ao Himalaia. O mal de atitude pode ser apenas uma dor de cabeça ou tontura, mas pode evoluir para um edema pulmonar ou cerebral e até a morte.
A recomendação para evitar os efeitos da altitude é se hidratar exageradamente, realizar tarefas com calma e evitar bebidas alcoólicas. Eu e outros integrantes do grupo ainda tomamos acetazolamida, medicamento usado no tratamento de glaucoma, mas que também reduz os efeitos do “mal da montanha”. Porém, antes de tomar qualquer medicamento, consulte seu médico.
Aventura a mais de 5 mil metros
Depois de dois dias em Lhasa, começava a aventura com a CFMOTO 1000 MT-X. Seriam pouco mais de 300 quilômetros rumo a Shannan, terceira maior cidade do Tibete. Mas, antes, subimos até o Mila Pass, a exatos 5.013 metros acima do nível do mar.
Além da bela vista do planalto tibetano, chamava a atenção o fato de haver sinal de celular naquela altitude e também a qualidade das estradas que nos levaram até ali.
Nascente de grandes rios e importante fonte de minerais, o Tibete tem recebido bilhões de dólares do governo central chinês nos últimos anos. Os investimentos financiaram a construção de usinas hidrelétricas e solares e obras hídricas. Com isso, atualmente, até os locais mais remotos do Tibete têm energia elétrica, irrigação e sinal de celular.
Parte do dinheiro do governo chinês também se destina à construção de milhares de quilômetros de estradas nas montanhas tibetanas. A rodovia para Shannan me surpreendeu. Foram 300 km com asfalto bom e bem sinalizado. Apesar da boa infraestrutura, o trânsito de pequenos tratores, veículos utilitários e animais exige atenção o tempo todo nas áreas rurais do Tibete.
Como vivenciou o britânico Alun Davies que atropelou um iaque, espécie de búfalo que vive no Himalaia e cruzou a estrada repentinamente. Piloto e animal ficaram bem, mas a moto perdeu seu para-lama dianteiro.
“Tentei frear, mas quando percebi que não ia parar, soltei o freio e segurei forte no guidão”, dá a dica o experiente galês de 67 anos, fundador da maior revista de motociclismo aventureiro do Reino Unido e ex-montanhista.
Neve, lagos e óleo diesel
O segundo dia de viagem seria o mais longo: quase 500 quilômetros de Shannan até Shigatse, a segunda maior cidade tibetana com quase 800 mil habitantes e já aos pés da Cordilheira do Himalaia. O início da viagem foi por uma estrada margeando o rio Yarlung Tsangpo, um dos mais importantes da região que depois segue para a Índia e forma o famoso Ganges.
A principal atração do dia era o lago Yamdrok, um dos três maiores lagos de altitude do Tibete com mais de 680 km² de área. Ao começarmos a subida para mais uma passagem de montanha a mais de 5 mil metros veio um forte cheiro de óleo diesel.
Acendeu o alerta: o tanque de algum caminhão deve ter vazado e derramava combustível nas curvas. Vi o rastro de diesel na estrada, mas nosso colega belga Jules Hermie não. Na curva seguinte, escorregou no óleo e foi ao chão. Para sua sorte, era uma curva voltada para a montanha e ele caiu em uma vala ao lado da estrada. Vestia jaqueta e calça de motociclismo e não sofreu arranhões. O saldo foram só algumas dores nas costas e uma ferida no ego do jovem repórter - e alguns arranhões nos protetores de carenagem e nas malas laterais de alumínio.
Depois do susto e de enfrentar óleo e neve na subida, fomos recompensados pela bela vista do azul turquesa radiante do lago Yamdrok, cuja superfície fica a 4.441 metros acima do nível do mar. Mais uma vez o Tibete nos surpreendeu.
Carne de iaque
Às margens do lago, paramos para almoçar carne de iaque, espécie de búfalo peludo que vive nas altas montanhas do Himalaia e é considerado um animal sagrado para os tibetanos. Apesar do restaurante simples - e com condições de higiene suspeitas - a comida era muito saborosa e a vista impressionante: o imenso lago turquesa cercado por picos nevados.
Contornamos o lago por mais de 70 km a caminho de Shigatse. Além da bela paisagem, temperaturas beirando os zero graus e até neve nos acompanhou na jornada até o glaciar Karola, que se ergue a 5.560 metros e nos fez pilotar debaixo de neve por muitos quilômetros.
Após um dia cansativo e cheio de emoções, chegamos ao hotel em Shigatse: um luxuoso Hilton com cozinha internacional para a alegria dos estrangeiros já cansados da apimentada culinária chinesa.
Rota 66 Chinesa
Bem alimentados e descansados, partimos para o terceiro dia de viagem e o mais esperado por todos do grupo. Finalmente entraríamos no Parque Nacional Qomolangma, nome que os tibetanos dão ao monte Everest, e chegaríamos à Cordilheira do Himalaia. Seriam 293 km até Zhaxizong, um vilarejo a 4.200 metros e o mais próximo que chegaríamos de moto do acampamento base do Monte Everest. Mas, antes do destino final, o caminho reservava diversas atrações.
Como a famosa estrada “G318”, que parte de Xangai e percorre mais de 5 mil quilômetros até a fronteira com o Nepal, atravessando as montanhas do Himalaia. Espécie de “Rota 66” chinesa é conhecida como “a estrada que você deve passar, pelo menos, uma vez na vida”. A G318 povoa o imaginário de todo aventureiro chinês como provam os inúmeros adesivos colados nos jipes e SUVs elétricos que rodavam por ali.
Confesso que o início da famosa rodovia me decepcionou. Saímos de Shigatse com ameaça de chuva e trânsito pesado. Para piorar, encontramos um comboio de dezenas de caminhões carregados com vans e micro-ônibus exportados da China para o Nepal. Antes de fazer uma ultrapassagem, além de prestar atenção ao trânsito no sentido contrário, era preciso se certificar de que nenhum motorista chinês - e como são impacientes! - já estava tentando ultrapassar o grupo de motos. Obras, cabras cruzando a estrada e os tratores que circulavam na rodovia exigiam o máximo de atenção.
Cerca de 50 km à frente, a G318 começa a subir as montanhas e rumar para sudoeste. Muitas curvas à frente, já era possível avistar os picos cobertos de neve das altas montanhas da Cordilheira do Himalaia. Estávamos na entrada do Parque Nacional de Qomolangma (lê-se Chomolanguima), que é como os tibetanos chamam o Monte Everest. Na língua local, significa “Deusa da Terra”.
Ao mesmo tempo em que o número de turistas aumentava, com ônibus, vans e carros particulares na estrada, apareciam mais postos de controle de imigração chineses. Em quase todos, tínhamos que mostrar o passaporte e fazer o reconhecimento facial diante de oficiais monossilábicos. O controle de quem circula pelo Tibete é bastante rígido. É impossível circular pela região sem as permissões necessárias.
Paramos para abastecer e recebemos do guia o ingresso para o parque nacional. Mais alguns quilômetros à frente, começou a famosa estrada de 108 curvas que leva ao Passo Gawula. A 5.200 metros, no topo fica o mirante descrito no início desse texto e de onde é possível avistar cinco picos com mais de 8 mil metros de altitude.
Em linha reta, o passo de Gawula fica a cerca de 60 quilômetros do Monte Everest. Depois do trânsito carregado do início do dia e das curvas para chegar ali, vimos pela primeira vez a montanha mais alta do mundo. Seu topo se destaca em meio a outros gigantes de pedra, e eu não contive a emoção. Escorreram lágrimas ao ver o Everest de tão perto pela primeira vez. Ficamos ali cerca de meia hora, apreciando o teto do mundo, tirando fotos e gravando.
Na descida em direção a Zhaxizong, mais curvas, muitas delas eram verdadeiros “cotovelos”. Empolgado, todo o grupo desceu a serra se divertindo e fazendo as suspensões e a eletrônica da CFMOTO 1000 MT-X trabalharem para valer.
Vilarejo ‘moderno’
Zhaxizong, o local mais próximo que se pode chegar de moto ou veículo particular do acampamento base do Everest do lado chinês, passa por um processo de transformação. Aliás, como todo o Tibete. Ali já deve ter sido um vilarejo, mas hoje parece mais uma pequena cidade em crescimento com diversas construções em execução, ruas recém-asfaltadas, iluminação pública e hotéis novos ou prestes a serem inaugurados.
Durante a pandemia de Covid-19, o governo chinês incentivou o turismo interno, inclusive para o Tibete. Com paisagens belíssimas e vistas de tirar o fôlego, a região é hoje um destino cobiçado pelos chineses. Zhaxizong recebe muitos grupos de turistas que passam a noite no local para ir ao acampamento base no dia seguinte. Foi o que fizemos.
A montanha tem suas regras
A previsão do tempo para a manhã seguinte era de tempo fechado no acampamento base, segundo contatos do nosso guia Kim, um chinês que mora com a família nos Estados Unidos. Com isso, ganhamos mais algumas horas de sono, pois iríamos só à tarde para ver o Everest de perto.
A viagem de ônibus dura cerca de 40 minutos, incluindo a parada em mais um posto da imigração chinesa. No tortuoso caminho, aí sim vimos pequenos vilarejos tibetanos, alguns deles destruídos por um terremoto de grande magnitude ocorrido em janeiro de 2025. Mas ao chegar ao acampamento base do Everest mais uma surpresa. O local está bem estruturado e mais parece uma “disneylândia” da montanha mais alta do mundo. Tem transfers em carrinhos elétricos, um café, loja de souvenir e até sinal de celular.
A movimentação de turistas e a dificuldade com as permissões do governo chinês explicam porque a maioria dos montanhistas preferem escalar o Everest pelo lado nepalês. Mas, por outro lado, a face norte do pico mais alto do mundo visto pelo lado tibetano é uma fotografia e uma vista mais rara.
Quando lá chegamos, a montanha mostrou que tem suas próprias regras. Contrariando as previsões, o pico estava coberto de nuvens. Mas minha sensação não era de decepção pelo fato de não conseguir ver o cume do Everest. Pelo contrário. Como nós, motociclistas, sabemos “a viagem é o destino”.
Cada estrada percorrida, cada curva contornada e cada mirante que havíamos passado até ali, quase 1.500 quilômetros depois de Lhasa tinham sido a verdadeira aventura.
Para nossa surpresa, antes de irmos embora, um vento bateu e o Everest revelou seu topo a 8.848 metros acima do nível do mar por alguns minutos. Uma visão que tornou essa viagem ainda mais inesquecível.
Monastério em festa
No dia seguinte, em teoria, iríamos apenas retornar a Shigatse. Mas o Tibete continuaria a nos surpreender. Saindo de Zhaxizong, pegamos uma estrada local margeando um rio de degelo em vale belíssimo em meio a cordilheira. Sem medo de errar, digo que foi uma das estradas mais bonitas de toda a viagem.
Ainda passamos pelas “Cem mil dunas”, que criam um contraste interessante entre a vista desértica e os picos nevados do Himalaia ao fundo. Ali a centenas de quilômetros, nos despedimos do Everest - avistamos a montanha pela última vez.
Ainda visitamos o Monastério de Sakya, uma das maiores correntes do budismo tibetano e que guarda centenas de milhares de textos sagrados. A cidade estava lotada de gente e parecia em festa.
Descobri que era “Saga Dawa”, o quarto mês do calendário lunar e período sagrado do budismo tibetano que celebra o nascimento, a iluminação e o parinirvana de Buda Shakyamuni. Pudemos entrar no templo e acompanhar os monges entoando cânticos. Mais uma experiência surpreendente do Tibete.
Alto demais
Pernoitamos em Shigatse e, no dia seguinte, a ideia era retornar a Lhasa. A expedição CFMOTO Adventure Ride, infelizmente, chegava ao fim. Antes, almoçamos em um restaurante caseiro, comida típica tibetana: o prato principal era uma sopa leitosa feita com muitos legumes e sabor mais suave do que os pratos chineses.
Assim como havia sido até então, a parada para o almoço era só mais uma desculpa para pilotarmos em subidas de montanhas sinuosas, belas estradas em grandes vales e mirantes de picos com milhares de metros de altitude e nomes difíceis de pronunciar e decorar. Mas as paisagens, as sensações, os cheiros e a realização de rodar de moto no teto do mundo ficarão para sempre gravados na memória.
